terça-feira, 22 de julho de 2014

Devo estudar Piano Erudito ou Popular?

Quando iniciei meus estudos de piano em 1980, aos nove anos de idade, sequer existia o curso de piano popular nos conservatórios e escolas de música (era preciso fazer aula particular com algum pianista do ramo). Qualquer música fora do repertório erudito (veja, também, no blog: O que é Música Clássica/Erudita?) era também escrita e arranjada (notas e ritmo do acompanhamento estabelecidos) para quem se interessasse em tocar outro tipo de música no piano.

Porém, além de dificilmente ser confiável (devido a versões simplificadas e erros em geral), esse tipo de material (ainda utilizado por professores não especializados em piano popular) pode, até, satisfazer a vontade do aluno, mas não lhe fornece as informações necessárias para tocar em grupo (banda), acompanhar alguém, tirar uma música de ouvido, improvisar e criar seus próprios arranjos (situações corriqueiras para quem, realmente, toca piano popular).

Hoje em dia, já é possível encontrar um vasto material especialmente voltado para piano popular, não sendo mais obrigatório estudar primeiro erudito (como antigamente) para aprender a tocar.

Mesmo assim, ainda há a crença que é "melhor" estudar piano erudito, mesmo quando se quer tocar popular, pois "quem toca erudito, consegue tocar popular, mas o inverso não". Apesar do piano erudito ser muito mais exigente nos detalhes e no preparo técnico, e alguns pianistas populares estudarem peças eruditas (especialmente Bach e Czerny) para aprimorar a sua técnica, essa afirmação não condiz com a verdade: cada um desses estilos necessitam de um treinamento específico (que não são ensinados no outro) para serem corretamente executados.

Portanto, um pianista formado em erudito não saberá fazer vários procedimentos específicos de piano popular, mesmo com uma técnica mais desenvolvida.

Aconselho a escolha do curso de piano erudito apenas às pessoas que já tem uma vivência com esse tipo de música (sabem do que se trata e gostam de ouvi-lo) e desejam toca-lo, ou aos que tem interesse em conhece-lo. Crianças podem ser introduzidas pelo professor, mas dificilmente prosseguirão no curso se também não forem incentivadas a aprecia-lo em casa.


domingo, 13 de julho de 2014

Existe uma idade certa para começar a estudar piano?

Pessoas de qualquer idade podem aprender a tocar piano. Exceto por algumas doenças adquiridas na velhice, ser mais velho não interfere no aprendizado. Apenas, talvez, no rendimento (veja no blog: Em quanto tempo estarei tocando?).

Crianças menores de 6 anos, e ainda não alfabetizadas, recebem uma aula especializada, com um desenvolvimento programático adequado à sua faixa etária (veja, também: Musicalização: aula ou brincadeira?).

Pessoas com necessidades especiais necessitam de professores com treinamento específico para lidar com essas características. 

Começar a estudar cedo só é relevante quando há pretensões profissionais envolvidas: o curso de Bacharelado em Música, ao contrário das demais profissões acadêmicas, não aceita alunos iniciantes, requerendo (através de provas específicas no vestibular) um treinamento prévio que gira em torno de 8 anos para piano erudito. 

Assim, uma pessoa que queira entrar na Faculdade de Música aos 18 anos (idade comum para os outros cursos), teria que ter iniciado os estudos de piano, pelo menos, aos 10 anos de idade.

Não havendo nenhum prazo para pressionar a velocidade do seu desenvolvimento, você pode fazer o curso no seu ritmo, adequando-o ao seu tempo livre e às suas prioridades. Só tome cuidado: muitas vezes, um ritmo flexível demais e sem metas/objetivos vai desanimando o aluno, que, com poucos e demorados progressos, acaba avaliando negativamente o custo-benefício do curso e desistindo.

Foto tirada por meu pai, em 10/01/1972, quando eu tinha dez meses de vida:

O que é Música Clássica/Erudita?

Música Clássica (ou Erudita) é um gênero originário na música secular e litúrgica da Europa Ocidental, em meados do séc. IX. Desenvolvido, até hoje, por especialistas da área e não por práticas folclóricas e populares, é o estilo responsável pela evolução técnica da Música ao longo da História.

Dentre seus diversos períodos (onde muitos consideram o Romantismo, no séc. XIX, como seu apogeu), houve o Classicismo (Período Clássico), no séc. XVIII, com o qual pode ser confundido quando usamos o termo 'Música Clássica' de maneira mais abrangente.

Classificado como "sério" e não-comercial, é um gênero cujas composições são comprometidas com a qualidade e evolução da arte musical, e não com a popularidade de sua repercussão (mesmo se a obra foi encomendada e paga para ser composta).

Essa independência de expressão, que compõe o cerne de sua produção, é muito valorizada dentre pessoas com alto grau de erudição (saber aprofundado em um ramo do conhecimento; instrução, cultura vasta e variada): críticos, especialistas e entendedores.

Porém, esse alto nível de elaboração e complexidade técnica, resultante, acaba requerendo, para sua apreciação, conhecimentos específicos também por parte do ouvinte, o que acaba dificultando sua divulgação e o acesso do grande público.

Alguns de seus principais expoentes foram: Bach, Mozart, Beethoven, Chopin, Wagner, Debussy, Schöenberg, entre muitos outros.

No sentido inverso, a Música Popular (Pop) é, geralmente, descompromissada com uma relevância artística, preocupando-se mais em entreter seus ouvintes do que contribuir com o desenvolvimento de novas técnicas, sistemas/estruturas de composição e métodos de expressividade.

Para conseguir sobreviver na indústria do entretenimento, a música pop sempre depende do sucesso com o público (ser aceita/consumida pela grande maioria das pessoas ou por um número significativo de determinado grupo/setor), e acaba reutilizando fórmulas, técnicas e conceitos já consagrados pelo gosto popular na elaboração de suas obras.

Alguns especialistas classificam o Jazz, a Bossa Nova e alguns outros estilos populares em um gênero intermediário: o da Música Semi-erudita (obras com grande grau de elaboração que utilizam a linguagem e influência da Música Popular).

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Como saber se a música está pronta?

Em casa, dificilmente conseguimos reproduzir as circunstâncias que enfrentaremos numa apresentação, onde vários fatores influenciam o nosso desempenho (veja, também, no blog: 5 razões porque tocamos melhor em casa). Assim, como saber que estudamos o suficiente para deixar a música pronta?

Na verdade, essa certeza nunca existirá: em qualquer momento, por diversas razões diferentes, podemos perder a concentração ou nos abalarmos emocionalmente, comprometendo nossa performance.

Além de desenvolver esse controle emocional (falarei sobre isso num outro post), a maneira mais eficaz de diminuir a chance de alguma coisa sair errado é, mesmo, estudar mais. 

Quando você estiver tocando perfeitamente em casa, já na primeira tentativa, experimente pianos/lugares diferentes (salas de aula, salas de estudo, casa de amigos/parentes, teatros, auditórios, etc.). Participe de apresentações ou organize você mesmo: toque para seus pais, irmãos, amigos, vizinhos, namorado(a), cônjuge e qualquer pessoa que possa fazer público. 

Durante sua masterclass no 10º Festival de Música de Londrina, em 1991, a grande pianista Yara Bernette (1920 - 2002) deu uma sugestão curiosa sobre a questão: calcule a média de horas que você dorme e coloque o despertador para te acordar exatamente no meio do sono (quem costuma dormir oito horas por dia e for deitar às 23h, por exemplo, deve colocar o despertador para as 3h). Imediatamente se levante, vá até o piano e toque: se não errar nada é porque a música está pronta!